Eu não sei se você quem encontrou esta carta é a mesma pessoa que encontrou as outras duas, de qualquer forma quero informar-lhe que uma delas está no norte, no presídio de segurança máxima de São Paulo, lá é seguro, porém a comida já se foi há muito. Motivo pelo qual eu e meu batalhão estamos rumando para o norte, mas se você tiver alimente amigo, fique por lá até o inferno sucumbir na luz, pois eu voltarei pra te buscar.
Há também uma carta em uma casa um pouco depois do presídio, é um tanto difícil de explicar como chegar lá por isso não vou perder este tempo que não tenho. De qualquer forma eu achei que iria morrer hoje, vou contar o que aconteceu:
Nós saímos da casa onde estávamos pelos fundos pois havia algo que estava nos farejando do lado de dentro, Thomas já estava melhor, a perna fora enfaixada pelo médico após a cirurgia e os curativos estavam feitos, mas ele mancava muito, o que atrasou nossa fuga. Seja lá o que estava rondando nossa casa tinha asas, e eu podia ouvir o farfalhar delas como se fosse a última coisa que ouviria naquela noite, eu podia sentir o calor exalado por ela, e o medo instintivo subiu-me a espinha. Eu olhava para Augusto ao meu lado me fazendo sinal para fiquer quieto, não fizemos barulho nenhum e nos esgueiramos para o fundo, acho que a criatura estava bem acima de nós, no telhado, Augusto segurava uma submetralhadora 9mm Luger, a famosa HK MPS, e ele estava confiante, e então eu também me senti. Mas não por que ele não parecia achar que iria morrer nesta situação, me senti confiante por que lembrei que a Palavra diz "Mesmo que eu caminhe pelo Vale da Sobra da Morte, não temerei mal algum, pois sei que tu estás comigo". E acho que isto faz parte de um Salmo, não me lembro bem.
Eu conferi minha arma por que iriamos sair, teríamos que correr tão rápido até um beco e depois, quando nossas pernas estivessem esfoladas de tanto correr, correriamos até uma igreja onde o outro grupo estava.
Eu tenho uma Hacker e Koch USP, também é uma 9mm, mas não me passava tanta segurança quanto uma metralhadora, quando se é novato em algum lugar, geralmente as pessoas te dão as piores merdas, o resto da comida fica pra você, e era o que me havia sobrado.
Lembro-me de um clarão quando Augusto chutou a porta, o céu estava se contorcendo numa nuvem de fogo e os prédios consumidos por uma matéria vermelha, um grito estridente ricocheteou pelos ares e tive a certeza que meus ouvidos sangraram, nós corremos.
Havia um demônio acima da casa, suas narinas juntavam-se com a testa descarnada, tinha dentes de serra e uma língua preta que deixava a saliva escorrer, suas asas eram atroses mas mesmo assim ele levantou vôo ao nos ver, eu senti o frio na barriga, mas apenas corri e ouvi os disparos de Augusto contra a criatura, ele gritava, Thomas gritava apoiado nos ombros de Nilton que tentava correr com ele, Nilton gritava de esforço demasiado e o mundo gritava pdindo clemência.
O demônio descia em razantes atrás de nós e num deles rasgou a carne de Augusto na altura dos ombros, mas o outro pente da arma fez com que mantesse a criatura longe. Nós passamos por carros destruidos, o asfalto havia se levantado em várias partes como uma vítima de um terremoto que não lembro de ter acontecido, os altos prédios de São Paulo estavam em cacos, ruínas sobre ruínas, havia muitos corpos no chão, dilacerados por qualquer coisa, mas eu não pude parar de correr. Ao longe havia um estrondo como se tambores estivessem sendo tocados anunciando a chegada do fim.
Finalmente alcansamos o beco e a criatura ferida atrás de nós não podia continuar voando ali, então ela desceu. Augusto disparou na nossa frente, Nilton, o médico, chorava, por que estava com tanto pavor que havia deixado Thomas para trás fugindo com as próprias pernas e corrido para longe. Eu estava vendo Thomas mancar para a morte, então tive que voltar, e naquela hora eu estava caminhando para a morte.
Eu atirei tantas vezes na criatura que o pente se foi em poucos segundos, 15 tiros, 7 certeiros. A criatura berrou e urrou de dor, a bocarra aberta fez pender a língua e a baba gosmenta se encontrou no chão. Corri e apoiei Thomas nos ombros que chorava por ter sido deixado para trás, fugimos e achei que seriamos alcançados quando avistei as portas da igreja abertas. A criatura estava logo atrás de mim e o desespero batia no lugar do meu coração, pude sentir o fogo que exalava de seu corpo e soube que ela havia preparado o ataque. Fechei os olhos. O segundo pareceu se tornar minutos, e depois se perder na eternidade. Achei mesmo que ia morrer, mas logo vieram os tiros e pude ver, todo o batalhão estava frente à porta da igreja com armas nas mãos, e todas simultaneamente disparando os projéteis metálicos que passaram por mim e cravaram-se no demônio logo atrás.
Thomas me agradeceu, eu louvei ao Senhor, pois mais uma vez estava a salvo.

Não se preocupe amigo, lembre-se que estamos rumando para o sul, eu ainda estou na igreja, é um grande templo com uma torre branca, ela ainda está inteira se não por alguns detalhes, e aqui também me parece seguro.
Me despeço por agora,tome cuidado, não saia quando há tempestade, mas aguarde que o céu esteja apenas em chamas, pois você poderá enxergar o perigo.
Willian Tavares Guerra
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