Cartas Encontradas

Uma voz no Walk-Tok, um resquício de esperança - 12/09/2011

Sinceramente eu dúvido que o que eu estou fazendo vale de alguma coisa, no começo eu até achei, juro que achei, que alguém podia estar lendo minhas cartas deixadas para trás. Mas eu não creio mais nisto.
Não creio por que isto simplesmente se esvaiu de minha mente, a ideia de que um sobrevivente poderia nos ajudar, nos tirar daqui, a um ano atrás eu sei que ainda existia pessoas de puro coração, pessoas com boas intenções, mas aqui eu dúvido, e dúvido de corpo e alma, talvez eu seja o último.
Eu tenho orado muito nesta igreja, os bancos estão destruidos e por isso me ajoelho no chão, achava que nunca ia me acostumar a ajoelhar, mas me acostumei, e não é estranho. Algo dentro de mim me diz para continuar a escrever, continuar a acreditar que eu estou fazendo algo e alguém está sendo beneficiado por isso, mas talvez seja só minha ideia adolescente de querer ser importante, Deus, me ajude.
Num dos cômodos da igreja eu achei vários papéis amarelados pela velhice, de modo que agora tenho muito o que escrever, e por isso vou contar um pouco mais dos meus dias.
Quando as portas da igreja se fecharam atrás de mim haviam muitos olhos em minha direção, muitas cabeças paradas à minha frente e achei que eu fosse uma das criaturas, e que logo os soldados do meu batalhão iriam começariam a atirar em mim. Mas de um súbito segundo eles explodiram em alegria, bradaram aos céus e me abraçaram, bateram em minhas costas e disseram "Meus parabéns". Juro que não entendi o por que exatamente, me disseram que eu havia salvado Thomas da morte, mas qualquer um que tenha um mínimo de coragem teria feito o mesmo certo?
Os médicos cuidaram dos feridos quando chegamos, fui surpreendido com dois pedaços de pães duros e água fresca que me trouxeram, disseram que havia um local onde se preparava comida na igreja, e ainda deve ter um pouco mais para nossa sobrevivência. Ontem Nilton foi se desculpar com Thomas e recebeu um soco na boca, então não disse mais nada até o momento.
Quando todos foram dormir o céu estava escuro, num mesclado de cinza e rubro, acho que eu não cheguei a comentar em outras cartas, mas os Walk-Toks não funcionavam em frequencia alguma desde que saímos do presídio. Mas eu ouvi ruídos em quanto rolava de um lado para o outro no chão de mármore da igreja, o sono não vinha e a imagem dos demônios preenchiam minha mente, a imagem de minha namorada e de meu pai eram muito vagas e eu não consegui me agarrar a elas para esquecer o sofrimente. Me levantei por que achei que havia algo estranho naquele ruído, não podia ser de nenhum dos homens a menos que eles tivessem pego uma doença e estivessem tossindo até morrer. Com passos lentos atravessei os corpos no chão por que o barulho vinha próximo ao soldado Lázaro, era seu Walk Tok.O ruído era baixo e cheio de interferência, mas no momento pensei ter ouvido alguém tentando se comunicar, eu tive que pegá-lo. Me isolei num canto da igreja onde a luz das velas não iluminavam e mechi no Walk Tok por horas antes de conseguir melhorar a frequencia.
"Por favor........rua Augusta Vie.....bairro...das Flores....ajuda"
Eu me lembro perfeitamente dessas palavras que soaram daquele aparelho, era uma voz feminina, jovial. Senti uma felicidade que não sei explicar até agora, como se a primavera tivesse chego deixando o frio do inverno para trás, como se todo aquele fogo e raiva tivessem sido apagados por que soube que alguém estava vivo. Com certeza era uma menina.
Eu não faço ideia de onde é este endereço, podem haver milhões de ruas Augustas, dezenas de bairros com nome Flores em São Paulo, pode não haver comida para onde nós estamos indo. Mas eu sinto que eu preciso achá-la. Sinto que este é um dever meu agora, e não sei por que sinto isso.
Por isso farei de tudo para que meu batalhão a encontre ao invés da comida, por que creio que precisamos fazer isso.
Meu nome é Willian Guerra, se você está lendo isso com certeza já não estou mais nesta igreja, eu disse que não acreditava que alguém estivesse lendo minhas cartas, mas depois daquela voz sinto que devo continuar fazendo isso.
Lembre-se que nós estamos aqui para sobreviver, lutamos contra o inferno. Talvez outras pessoas possam precisar da sua ajuda, por isso compartilhe estas cartas, eu te peço, por favor.

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