Cartas Encontradas

Nos olhos de Guernica

O amanhecer é cinzento e as perdas são de sangue.
Perdoe-me, por favor, imagino que esta não é a frase que você gostaria de ouvir agora, mas ela é a tradução do que os dias realmente são aqui.
Cinzas, e sangue.
Antes de transcrever tudo o que preciso que saiba, queria pedir perdão à algumas pessoas que provavelmente você não conhece e nunca irá conhecer, o que eu lamento, pois são pessoas dignas de sorrisos fáceis e amor sincero.
Primeiramente, pai, me perdoe. Talvez eu não tenha sido o que você esperava, talvez eu não tenha feito o melhor para o senhor enquanto eu podia, agora, saiba disso,eu me arrependo de não ter te escutado, de não ter te agradado o o suficiente. Pai, eu te amo
Ao meu irmão Lucas,eu não tenho muitas coisas a falar sobre você, nós nunca fomos muito próximos um do outro, nunca ficamos horas rindo ou conversando juntos, ou qualquer outra coisa que exatamente neste momento, eu gostaria de estar fazendo com você, Lucas, eu te amo, perdoe-me por não ter passado muito tempo ao seu lado, perdoe-me pelos abraços negados que hoje me fazem falta, simplesmente isso, perdoe-me.
Você, que está lendo isso agora, não sabe como é estar aqui, nas portas do inferno, não sabe o que é ter de matar, ter de ver morrer, não sabe o que é não ter com quem se consolar, ninguém, aliás. Talvez você saiba o que é ter que fingir ser forte, quando na verdade é um fraco, quando não se tem forças nem para andar, mas é obrigado a carregar o fardo de alguém. Eu só queria pedir a você, dê valor à quem está do seu lado, por você, por mim, apesar de não me conhecer, faça isso...


Cinzas, e sangue.
Passaram cinco meses desde minha última carta, e é um tempo longo, eu sei. Mas eu não estou morto, e se você está lendo isso agora, eu não desisti de você.
Eu não me lembro bem do nosso último "contato", é difícil se lembrar das coisas neste turbilhão de catástrofes e sofrimento, mas eu estava indo atrás de uma garota. Eu estava tão impolgado, era como se água tivesse caído sobre meus olhos naquele dia, eu tive esperança de que realmente a encontraria, mas lamento desapontar a você, se como eu, também acreditou nisso, eu não a encontrei. Nunca mais houve um contato, os walk-toks pararam de funcionar novamente e somente o ruído é ouvido, nada mais que isso. As circunstancias que eu estava me levaram ao erro, eu confesso. Nosso batalhão não tinha comida suficiente, em três dias o estoque da igreja se esvaiu como se nunca tivesse existido, a também havia acabado em menos de uma semana, e o que era escasso tinha se tornado quase inexistente. Nós passavamos fome, como nunca antes passamos.
Partimos em busca de comida quando já aguentavamos mais, nosso objetivo era a sobrevivência e nossa fé era tão pouca quanto a pagua que tinhamos. 
Não havia nuvens no céu, mas redamoinhos de fogo, como grandes vórtices dispostos a nos olhar, o calor quase insuportável reduzia nossa marcha dia após dia, perdemos um membro e foi talvez a pior semana de nossas vidas, ele se chamava Marcelo, e era tão alegre quanto os nossos dias nos permitiam ser, mas uma doença o pegou de surpresa, algumas feridas vermelhas surgiram na superfície de sua pele, e depois criaram casca e crosta avermelhada, ele não respirava direito e não tinhamos equipamentos para aliviar sua dor, eu me lembro dos gritos, eram altos e agudos, e lamentosos. Era horrível.
Nilton disse que a doença era contagiosa, não podiamos deixá-lo para trás, mas parecia a coisa certa a fazer para que os outros não morresem junto com ele, ou se infeccionassem. Fizemos uma votação e, no final, a maioria optou por deixá-lo de quarentena, mas eu não era a maioria.
Aos poucos eu vi seu sorriso sumir de seu rosto, sucumbir na escuridão e dar lugar ao choro icontido, às lágrimas fartas e aos soluços constantes, Marcelo ficou tão magro que mal consegua se colocar de pé, passou-se um mês na quarente, e ele nao aguentou. Os outros encontraram seu corpo caído no chão da casa onde estávamos, ele havia se matado, com um tiro na cabeça.


Sinto muito, eu tenho muito o que falar mas o tempo é curto demais, aida tenho muito papel para escrever, por tanto não se preocupe, será feita uma grande reunião agora, não sei ao certo o que irão colocar em jogo, mas com certeza eu faço parte dele, eu não escolhi estar aqui, não imaginei estar, mas estou, e não vejo uma volta concreta para isso, mas eu ainda acredito em você.
Já que você está lendo isso, eu ei onde você está, mas não há nada mais nesta construção, o prédio está destroçado e não há mais comida, as camas estão podres ou queimadas, não fique aqui, eu não vou ficar. Sei que partiremos dentro de três dias, ainda não sei para onde, mas eu juro tentar te informar, não desista, não pare, eu acredito em você e preciso que você acredite em mim, confie, eu sei que é difícil, que os tempos não estão fáceis. Cinzas e sangue. 
Procure não aliementar sua carne, mas alimente seu espírito, você conseguirá. Eu sei que sim. 
Willian Tavares Guerra 

Uma voz no Walk-Tok, um resquício de esperança - 12/09/2011

Sinceramente eu dúvido que o que eu estou fazendo vale de alguma coisa, no começo eu até achei, juro que achei, que alguém podia estar lendo minhas cartas deixadas para trás. Mas eu não creio mais nisto.
Não creio por que isto simplesmente se esvaiu de minha mente, a ideia de que um sobrevivente poderia nos ajudar, nos tirar daqui, a um ano atrás eu sei que ainda existia pessoas de puro coração, pessoas com boas intenções, mas aqui eu dúvido, e dúvido de corpo e alma, talvez eu seja o último.
Eu tenho orado muito nesta igreja, os bancos estão destruidos e por isso me ajoelho no chão, achava que nunca ia me acostumar a ajoelhar, mas me acostumei, e não é estranho. Algo dentro de mim me diz para continuar a escrever, continuar a acreditar que eu estou fazendo algo e alguém está sendo beneficiado por isso, mas talvez seja só minha ideia adolescente de querer ser importante, Deus, me ajude.
Num dos cômodos da igreja eu achei vários papéis amarelados pela velhice, de modo que agora tenho muito o que escrever, e por isso vou contar um pouco mais dos meus dias.
Quando as portas da igreja se fecharam atrás de mim haviam muitos olhos em minha direção, muitas cabeças paradas à minha frente e achei que eu fosse uma das criaturas, e que logo os soldados do meu batalhão iriam começariam a atirar em mim. Mas de um súbito segundo eles explodiram em alegria, bradaram aos céus e me abraçaram, bateram em minhas costas e disseram "Meus parabéns". Juro que não entendi o por que exatamente, me disseram que eu havia salvado Thomas da morte, mas qualquer um que tenha um mínimo de coragem teria feito o mesmo certo?
Os médicos cuidaram dos feridos quando chegamos, fui surpreendido com dois pedaços de pães duros e água fresca que me trouxeram, disseram que havia um local onde se preparava comida na igreja, e ainda deve ter um pouco mais para nossa sobrevivência. Ontem Nilton foi se desculpar com Thomas e recebeu um soco na boca, então não disse mais nada até o momento.
Quando todos foram dormir o céu estava escuro, num mesclado de cinza e rubro, acho que eu não cheguei a comentar em outras cartas, mas os Walk-Toks não funcionavam em frequencia alguma desde que saímos do presídio. Mas eu ouvi ruídos em quanto rolava de um lado para o outro no chão de mármore da igreja, o sono não vinha e a imagem dos demônios preenchiam minha mente, a imagem de minha namorada e de meu pai eram muito vagas e eu não consegui me agarrar a elas para esquecer o sofrimente. Me levantei por que achei que havia algo estranho naquele ruído, não podia ser de nenhum dos homens a menos que eles tivessem pego uma doença e estivessem tossindo até morrer. Com passos lentos atravessei os corpos no chão por que o barulho vinha próximo ao soldado Lázaro, era seu Walk Tok.O ruído era baixo e cheio de interferência, mas no momento pensei ter ouvido alguém tentando se comunicar, eu tive que pegá-lo. Me isolei num canto da igreja onde a luz das velas não iluminavam e mechi no Walk Tok por horas antes de conseguir melhorar a frequencia.
"Por favor........rua Augusta Vie.....bairro...das Flores....ajuda"
Eu me lembro perfeitamente dessas palavras que soaram daquele aparelho, era uma voz feminina, jovial. Senti uma felicidade que não sei explicar até agora, como se a primavera tivesse chego deixando o frio do inverno para trás, como se todo aquele fogo e raiva tivessem sido apagados por que soube que alguém estava vivo. Com certeza era uma menina.
Eu não faço ideia de onde é este endereço, podem haver milhões de ruas Augustas, dezenas de bairros com nome Flores em São Paulo, pode não haver comida para onde nós estamos indo. Mas eu sinto que eu preciso achá-la. Sinto que este é um dever meu agora, e não sei por que sinto isso.
Por isso farei de tudo para que meu batalhão a encontre ao invés da comida, por que creio que precisamos fazer isso.
Meu nome é Willian Guerra, se você está lendo isso com certeza já não estou mais nesta igreja, eu disse que não acreditava que alguém estivesse lendo minhas cartas, mas depois daquela voz sinto que devo continuar fazendo isso.
Lembre-se que nós estamos aqui para sobreviver, lutamos contra o inferno. Talvez outras pessoas possam precisar da sua ajuda, por isso compartilhe estas cartas, eu te peço, por favor.

Apuros sob este Céu - 09/08/2011

Graças a Deus eu estou aqui, eu quase não pude deixar esta carta para você por que eu quase perdi minha vida.
Eu não sei se você quem encontrou esta carta é a mesma pessoa que encontrou as outras duas, de qualquer forma quero informar-lhe que uma delas está no norte, no presídio de segurança máxima de São Paulo, lá é seguro, porém a comida já se foi há muito. Motivo pelo qual eu e meu batalhão estamos rumando para o norte, mas se você tiver alimente amigo, fique por lá até o inferno sucumbir na luz, pois eu voltarei pra te buscar.
Há também uma carta em uma casa um pouco depois do presídio, é um tanto difícil de explicar como chegar lá por isso não vou perder este tempo que não tenho. De qualquer forma eu achei que iria morrer hoje, vou contar o que aconteceu:
Nós saímos da casa onde estávamos pelos fundos pois havia algo que estava nos farejando do lado de dentro, Thomas já estava melhor, a perna fora enfaixada pelo médico após a cirurgia e os curativos estavam feitos, mas ele mancava muito, o que atrasou nossa fuga. Seja lá o que estava rondando nossa casa tinha asas, e eu podia ouvir o farfalhar delas como se fosse a última coisa que ouviria naquela noite, eu podia sentir o calor exalado por ela, e o medo instintivo subiu-me a espinha. Eu olhava para Augusto ao meu lado me fazendo sinal para fiquer quieto, não fizemos barulho nenhum e nos esgueiramos para o fundo, acho que a criatura estava bem acima de nós, no telhado, Augusto segurava uma submetralhadora 9mm Luger, a famosa HK MPS, e ele estava confiante, e então eu também me senti. Mas não por que ele não parecia achar que iria morrer nesta situação, me senti confiante por que lembrei que a Palavra diz "Mesmo que eu caminhe pelo Vale da Sobra da Morte, não temerei mal algum, pois sei que tu estás comigo". E acho que isto faz parte de um Salmo, não me lembro bem.
Eu conferi minha arma por que iriamos sair, teríamos que correr tão rápido até um beco e depois, quando nossas pernas estivessem esfoladas de tanto correr, correriamos até uma igreja onde o outro grupo estava.
Eu tenho uma Hacker e Koch USP, também é uma 9mm, mas não me passava tanta segurança quanto uma metralhadora, quando se é novato em algum lugar, geralmente as pessoas te dão as piores merdas, o resto da comida fica pra você, e era o que me havia sobrado.
Lembro-me de um clarão quando Augusto chutou a porta, o céu estava se contorcendo numa nuvem de fogo e os prédios consumidos por uma matéria vermelha, um grito estridente ricocheteou pelos ares e tive a certeza que meus ouvidos sangraram, nós corremos.
Havia um demônio acima da casa, suas narinas juntavam-se com a testa descarnada, tinha dentes de serra e uma língua preta que deixava a saliva escorrer, suas asas eram atroses mas mesmo assim ele levantou vôo ao nos ver, eu senti o frio na barriga, mas apenas corri e ouvi os disparos de Augusto contra a criatura, ele gritava, Thomas gritava apoiado nos ombros de Nilton que tentava correr com ele, Nilton gritava de esforço demasiado e o mundo gritava pdindo clemência.
O demônio descia em razantes atrás de nós e num deles rasgou a carne de Augusto na altura dos ombros, mas o outro pente da arma fez com que mantesse a criatura longe. Nós passamos por carros destruidos, o asfalto havia se levantado em várias partes como uma vítima de um terremoto que não lembro de ter acontecido, os altos prédios de São Paulo estavam em cacos, ruínas sobre ruínas, havia muitos corpos no chão, dilacerados por qualquer coisa, mas eu não pude parar de correr. Ao longe havia um estrondo como se tambores estivessem sendo tocados anunciando a chegada do fim.
Finalmente alcansamos o beco e a criatura ferida atrás de nós não podia continuar voando ali, então ela desceu. Augusto disparou na nossa frente, Nilton, o médico, chorava, por que estava com tanto pavor que havia deixado Thomas para trás fugindo com as próprias pernas e corrido para longe. Eu estava vendo Thomas mancar para a morte, então tive que voltar, e naquela hora eu estava caminhando para a morte.
Eu atirei tantas vezes na criatura que o pente se foi em poucos segundos, 15 tiros, 7 certeiros. A criatura berrou e urrou de dor, a bocarra aberta fez pender a língua e a baba gosmenta se encontrou no chão. Corri e apoiei Thomas nos ombros que chorava por ter sido deixado para trás, fugimos e achei que seriamos alcançados quando avistei as portas da igreja abertas. A criatura estava logo atrás de mim e o desespero batia no lugar do meu coração, pude sentir o fogo que exalava de seu corpo e soube que ela havia preparado o ataque. Fechei os olhos. O segundo pareceu se tornar minutos, e depois se perder na eternidade. Achei mesmo que ia morrer, mas logo vieram os tiros e pude ver, todo o batalhão estava frente à porta da igreja com armas nas mãos, e todas simultaneamente disparando os projéteis metálicos que passaram por mim e cravaram-se no demônio logo atrás.
Thomas me agradeceu, eu louvei ao Senhor, pois mais uma vez estava a salvo.




Não se preocupe amigo, lembre-se que estamos rumando para o sul, eu ainda estou na igreja, é um grande templo com uma torre branca, ela ainda está inteira se não por alguns detalhes, e aqui também me parece seguro.
Me despeço por agora,tome cuidado, não saia quando há tempestade, mas aguarde que o céu esteja apenas em chamas, pois você poderá enxergar o perigo.

Willian Tavares Guerra

A Caminho do Sul - 07/08/2011

Eu ainda estou vivo.
Não sei por quanto tempo minha sanidade ainda caminhará ao meu lado, talvez ela morra antes da minha esperança, ou talvez sejamos todos queimados juntos.
Nós saímos do presídio de segurança máxima divididos em dois grupos de quatro pessoas, não sei dizer que horas saímos, menos ainda que horas são agora por que há muito eu perdi noção do tempo. Tudo é uma mistura de cinza e vermelho lá fora, não há sol, não há lua, apenas o fogo que consome o céu. Deus, tenha misericórdia de nós.
Thomas ainda está comigo por que um dos médicos que foi designado a fazer parte do meu grupo é especialista em operações para retirar balas dos outros. Não sei se isto interessa a vocês mas o médico se chama Nilton, e acho que o outro soldado carrega o nome de Augusto Cruz, não me lembro bem por que nomes não são importantes aqui.
Se você está lendo esta carta é por que é um sobrevivente, e tenha fé que nós iremos sair daqui, eu tenho fé, ainda que seja um resquício dela dentro de mim. Você pode escutar os gritos do lado de fora? Em quanto corríamos para cá eu acho que vi uma silhueta humana perdida num beco próximo, creio que era uma das bruxas que caminham do lado de fora, os risos delas são estridentes e perturbadores como as garras frias do medo. Você está seguro aonde está, não se preocupe. Procure dentro da gaveta da cômoda à da cela 03, aí há o resto do meu alimento que deixei na esperança que lhe fosse útil, eu realmente estou passando fome aqui, por isso peço que coma como se fosse sua última refeição.
Nós estamos esperando a chuva do lado de fora passar, achamos uma casa abandonada em quanto rumávamos para o sul, dizem que lá há uma espécie de forte onde há estocagem de comida, ouvi Thomas comentar algo antes de sairmos do presídio, e ele disse que alguém tinha dito isso para ele através do rádio que voltara a funcionar. Não perca as esperanças amigo.

Se você estiver rumando para o sul também peço que não tome o mesmo caminho que meu grupo tomou, olhe pela janela e você vai ver um prédio alto e destroçado, ainda deve ter demônios voando ao redor dele, eles sempre estiveram aí. Bem, ao invés de seguir pela direita deste prédio vá pelo outro lado, passe pela pilha de carros queimados e suma no horizonte sangrento, eu sei que após um tempo haverá uma longa avenida, e é esta avenida que você deve descer para chegar aonde iremos.
Nós seguimos pela direita e encontramos morte, há um número incontável de filhos do inferno espalhados por esta rua, foi horrível vê-los, mesmo de longe, eles se digladiam e se dilaceram, raça contra sua própria raça, e o fedor de enxofre é tão forte que eu vomitei minha comida, e depois vomitei sangue. Por isso tivemos que voltar.
Lembre-se, não vá pela direita, nós vamos sair daqui a meia hora mais ou menos, vamos encontrar o outro grupo de soldados em algum lugar à frente, eu não sei direito, não chore, não desista, não se abandone, lembre-se que Deus é por você e que este inferno não poderá prevalecer, tenha esperança meu amigo.
Ainda há esperança.

Carta aos Sobreviventes - 06/08/2011

Olá, meu nome é Willian T. Guerra e sinceramente não sei se o que estou fazendo vale de alguma coisa, está cada vez mais difícil escrever em meio a esse pandemônio e eu nunca sei se vou conseguir terminar a próxima palavra.
O fogo lá fora continua a cair dos céus e a qualquer instante podemos ser todos mandados pelos ares, há feridos em meu batalhão, faz dois dias que não comemos nada e a reserva de água provavelmente acabará ao alvorecer.
Não faço ideia de quem está lendo esta carta agora, mas sinceramente, eu gostaria que soubesse que Eu te amo, não importa seus feitos e defeitos ou suas obras do passado, Eu te amo. Talvez você não entenda isso agora, talvez você nunca entenda, mas quando estamos perto da morte nós descobrimos que todo ser humano precisa de alguém que o ame de verdade, que segure sua mão e lhe dê um abraço amigo, que te tire da sarjeta e limpe a merda que você fez. Todos nós temos um fardo a carregar e, infelizmente, não são todos que conhecem o meu Deus, e é por isso que se agarram em coisas tão pequenas na vida, mas quando se está cara-a-cara com o demônio é que você percebe o verdadeiro amor dos outros.

Parece até absurdo o que estou fazendo,atrás de mim têm um cara caído, o Thomas, ele foi atingido por um tiro de Ruger Redhawk .44 bem na perna ontem a noite, e ele ainda grita bastante de dor, deve ter rompido muitos ligamentos e os médicos não têm muita esperança de que ele volte a andar. Ao meu lado os soldados engatilham as armas, conferem munições e equipamentos, relembram ordens e pensam na família, e eu aqui escrevendo toda essa merda pra vocês, não parece haver muita glória nisso, mas, de fato não há mais glória neste mundo.
Vocês deviam ver como as pessoas mudam nessas situações, elas se revelam quando pisam no campo de batalha, quando são obrigadas a escolher entre salvar a própria vida ou a vida de seu companheiro, aí vemos seu real valor, vemos quem é amigo ou inimigo. Já me acostumei com o sangue derramado, também tive que me acostumar a derramá-lo, atirar a queima roupa e em criaturas desprevenidas têm se tornado rotina pra mim nesse último mês, e por Deus, queira você nunca precisar fazer isso.
Para que você saiba um pouco sobre o que está acontecendo vou redigir nesta carta, e espero que você possa nos ajudar da forma que puder, pois estamos sozinhos nessa.
Somos um batalhão separado do exército brasileiro, treinados única e exclusivamente para caçar e eliminar as criaturas que vieram, todos desconfiam que as bruxas que voltaram estão no controle, e que seria preciso somente matá-las para que todo este inferno acabasse, pelas ruínas de minha cidade encontrei alguns que disseram ser o fim dos tempos, o juízo final onde as portas do inferno se abririam e todos os demônios caminhariam pela terra, eu não duvido que esta possa ser a verdade, e se for, que seja eu arrebatado para não sofrer mais, mas não sei se você se preocupa realmente com isso.
Estamos a um mês confinados numa espécie de presídio de segurança máxima, saímos pouco daqui por que lá fora é perigoso, mas já tivemos êxito em duas caçadas, o primeiro fora uma espécie de homem descarnado com garras no lugar das unhas, o segundo era como um demônio de chifres curtos, rápido como um leopardo, e sim, eu ajudei a captura-los, desde que estou aqui meus sentidos foram obrigados a se desenvolver, ás vezes acho que estou louco por que aos poucos eu perco o senso, algumas vezes me peguei em completa fúria do "lado de fora", correndo e atirando em cada filho do inferno a minha frente, e é isso o que essas situações fazem com as pessoas, tira parte de sua sanidade, mas isso é justo comigo? Foi realmente justo? Ser jogado aos dezesseis anos no campo de batalha em meio a soldados de verdade? Ter de caminhar por mortos e carregar seus túmulos, ter de enterrar corpos e atirar em alguém, não era o futuro que eu tinha para mim, isso não estava nos meus planos.
Mas o perigo estava em nossa porta, eu entendo, houve uma onda de rituais envolvendo sacrifícios humanos, a polícia começou a investigar mas nunca chegaram na conclusão da missão, então tínhamos que surpreendê-los de alguma forma, assim o exército foi mandado para São Paulo, onde o foco de sacrifícios e criaturas começou a surgir, e como éramos poucos os alistados, e muitos os ineficazes, qualquer garoto de dezesseis anos, que não fosse o único homem da família teria de ser incluso ao exército. Assim eu vim parar aqui, mas não vou mais ficar me lamentando, aliás à muito eu não o fazia, mas melhor ter minha vida arriscada na guerra para salvar a pátria, do que a do meu querido pai, que já está muito velho e doente, ou do meu querido irmão, por nada nesse mundo desejaria que eles tivessem vindo em meu lugar, e sei que se orgulharão da minha morte nestes campos.

O céu está escuro de fumaça lá fora, geralmente há redemoinhos de fogo que se misturam nas nuvens e cospem chamas na Terra, tudo parece ter sido dominado pelas bruxas e suas crias, eu já vi um destes redemoinhos uma vez, e por Deus, espero ter sido a última.

Thomas continua gritando, e os soldados ainda fazem suas malas para o próximo ataque, nós vamos para o sul, onde há uma concentração de comida em reserva. Vamos atacar, matar e pilhar o que encontrarmos, Deus tenha misericórdia de nós e proteja nossas almas contra o mal, mas sairemos para matar.




Este é apenas um breve relato do que aconteceu desde que chegamos aqui, a guerra está apenas no começo e creio que muito sangue ainda vai ser derramado, acho que verei muitos amigos morrerem e muitos nos matarem com um punhal nas costas, por que irão preferir se juntarem ao lado que parece mais forte, mas eu entendo por que isto é o inferno, isto é guerrear e como já disse não vou ficar me lamentando. Eu sou Willian Guerra, escrevendo do presídio de segurança de São Paulo para dizer que, Eu te amo, e ainda tenho esperança.